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A Abstração só atrapalha na Marca do penalti
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A abstração só atrapalha na marca do pênalti


             Flamengo contra Vasco da Gama, semifinal do campeonato carioca de 2008. Edmundo estréia no time de São Januário, após um longo período fora do time em que fez história como o “Animal”. Pois bem, Ibson, camisa sete do rubro-negro aos cinqüenta minutos de jogo, início de segundo tempo, provoca pênalti no ágil Morais, camisa noventa e oito do adversário luso-brasileiro. É tempo de pênalti. Ibson reclama, xinga, mas no fundo sabe que o juiz tem razão: ele fez o pênalti. Resta recorrer a um último subterfúgio, e ele espera os dois possíveis cobradores de pênaltis do Vasco, Morais e Edmundo, se acertarem sobre quem executará a penalidade. Não há muita discussão. O “Animal” dos tempos idos, a fim de tornar sua estréia um acontecimento heróico, pega na bola, com as mãos, em delicada e contemplativa cena, e encaminha a bola à fatídica marca do pênalti. A pelota se encaixa na marca branca, perfeita, constrói-se a simetria das quatro linhas, e milhares, milhões de pessoas assistem a cena, visceral ou virtualmente, à espera do desenrolar daquela velha máquina de guerra. É tudo muito rápido, mas acontece. Ibson se lança de pronto ao lado do ídolo vascaíno. Fala, olhando para o gol, mas fitando Edmundo, que também olha para o gol, no que fita Ibson em resposta.

             - Você vai falhar, vai chutar pra fora.
             - Some daqui – responde o Animal. Os dois não alteram a forma da face, nervosa, porém estática.
             -  Não sou quem o digo, são as forças do tempo e espaço. Sagra-se o incomensurável e o inominável. Somos criaturas que, essencialmente e além de qualquer outra enunciação, se firmam pela distância e alienação do outro. Que mundo incognoscível nos cerca, Edmundo! Sabemos do amanhã? Tanto quanto ignoramos do passado. Que passado e que futuro? Só de haver formas que nos localizam no tempo, somos tardios em qualquer julgamento, já o somos em um tempo, já o devemos ao variante das estações, a primavera nos muda, a lua nos muda, que maré? Qual verdade à de sobreviver ao eclipse? Quem não perece às agulhadas dos ponteiros? Como já dizia nos Ricardo Reis,
                                 “Se aqui, à beira mar, o meu indício
                                  Na areia o mar com ondas três apaga,
                                 Que fará na alta praia
                                 Em que o mar é o Tempo?”
              - Some, urubu! Foste narcísico nos gols que fizestes, nas vitórias em que então bradava “Creu, creu,creu!”, e agora espera me pesar o fardo com palavras de desespero?
               - Espera-me cantar sobre o espaço! Alimenta ainda esperança no homem, quando sois pele e osso, camisa e número, e sabes tanto do mundo que o cerca quanto o cego sabe das cores do amanhecer boreal? Nessa rede que desejas tanto estremecer, quantos universos não existirão que de todo desconheces? A ciência nos vislumbra as respostas, e revela os enigmas que são cada vez mais claros! Pode chutar e fazer o gol, mas saberá da outra dimensão, aquela que só nos pode aparecer na forma de hipótese? Pode satisfazer a sede de milhares ao seu redor, mas satisfará a sua? Que mais te aguardará depois dos abraços, das festas, das orgias?
               - Bem que gostas de tudo isso...
               - Me são caros os prazeres... Mas vago nauseabundo pelos gramados do mundo, sou um pária por onde passo, desgarrado de meu país, a Altura Celestial! Que me são segundos, se logo depois sou tomado pela nebulosa do destino da imperfeição?
               - Que imperfeição o quê! Que foi perfeito nesse mundo, se não a hipótese? Mesma hipótese, lembre-se canalha, que destronas como sendo o ato extradimensional genuinamente humano! Como és contraditório! Choras amarguras que não vivencia! És um cachorro esperançoso, és um estapafúrdio gozador! Vai chorar, preso as amarras da dor, até que teu time ganhe outro jogo. Em outro campeonato, entretanto! Este, é Edmundo que tomará nos braços, aguarde e verá! Como Davi fez com a funda, o gigante á minha frente tombará por grama, não com uma funda, mas com uma bola!

          Sorte, azar, entropias, ziquiziras, fatos, um campo delimitado da consciência jamais poderemos ter, que objeto poderá haver que não seja para o homem, que eu poderá haver que não seja objeto, que conhecimento empírico poderá se ter, que não seja sombra no futuro e no passado, e que não seja vão dentro de um espaço infinito?
           Sorte, azar, confusão, idiossincrasia... Bruno, o goleiro Flamenguista, alto e bem forte, de habilidade reconhecida, e ídolo da torcida, estudou os pênaltis do atacante que agora se acerca da bola. Em todos as cobranças estudadas, batidas no período em que Edmundo jogava pelo Figueirense e pelo Palmeiras, o Animal cobrava a dívida da penalidade pelo lado direito da rede. Bruno sabia aonde pular, mas ainda assim o Animal podia acertar, com força e agilidade, como fez nas cobranças estudadas. Bruno não estremece; reza para ser capaz de defender suas traves, e para que Ibson tenha feito sua parte.

         

             Como sabemos hoje, passados esses tempos, Edmundo perdeu a cobrança. Bateu fraco e rasteiro, o excelente goleiro nem precisou de sua excelência para defender-se. Eurico Miranda, se esti




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Textos - Categoria: ficção científica
21/3/2008
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